O Movimento como Condição Existencial: Apresentação ao Cuidado em Movimento
- isabelitacrosariol
- 24 de nov. de 2025
- 5 min de leitura
Atualizado: 25 de nov. de 2025
Profa. Dra. Isabelita Crosariol
(IFSP – campus São José dos Campos)
Falar em movimento quase sempre leva ao imaginário do deslocamento: caminhar, correr, levantar, sustentar um peso. É a camada que conseguimos ver, medir, contar. Mas o corpo opera numa escala mais profunda e mais silenciosa, em que o movimento não depende de vontade, intenção ou desempenho. A respiração ajusta seus ciclos mesmo quando ignorada. O coração adapta seu ritmo ao menor estímulo. O trato digestivo conduz seu percurso em ondas contínuas. Tecidos se renovam, células se organizam, substâncias são transportadas. Do ponto de vista biológico, a imobilidade não existe; existem apenas formas diferentes de atividade.
E isso permanece verdadeiro inclusive quando se acredita estar parado. Mesmo sentado, aparentemente imóvel, diante de uma tela, há microajustes de postura, mudanças discretas de apoio, variações de tônus, pequenos deslocamentos da cabeça. Há resposta à luz, ao som, à temperatura. Há troca constante entre corpo e mundo, mesmo quando o gesto visível parece mínimo. Somos, estruturalmente, corpos em movimento.
Essa percepção se amplia ainda mais quando se considera que nenhum organismo existe apartado dos ritmos que o circundam. O corpo não está apenas “sobre” um planeta que se move: ele é levado pelo próprio movimento da Terra. O planeta gira em torno de si mesmo e em torno do Sol; atravessa ciclos de luz, gravidade e temperatura que modulam sono, vigília, disposição.
E, enquanto a Terra gira, nós giramos com ela. Há deslocamento constante em escala planetária, uma mudança contínua de posição no espaço, uma participação involuntária em ritmos que nos excedem. O aparentemente estático nunca é completamente parado porque não há ponto fixo no cosmos que permita uma verdadeira suspensão do movimento.
Reconhecer isso desloca o eixo da discussão. Não se trata mais de saber se o corpo se move, mas como esse movimento se organiza, por que assume certas formas e a serviço de quê. Quando se compreende que não existe ausência de movimento, apenas modos diferentes de mover-se, a noção de “falta de movimento” revela sua insuficiência.
A vida cotidiana é um mosaico em movimento: caminhada apressada entre compromissos, reorganização do corpo para o trabalho ou os estudos, ajuste ao peso das responsabilidades, permanência por longos períodos em atenção concentrada, deslocamento pelos espaços, produção de respostas corporais ao ambiente emocional. A repetição desses gestos treina o corpo: molda posturas, ritmos respiratórios, modos de sustentar o próprio peso, padrões de tensão e resposta. O corpo aprende aquilo que a vida exige. Esse aprendizado pode fortalecer ou fragilizar. Pode ampliar variabilidade ou reduzir possibilidades. Pode construir presença ou consolidar sobrecarga.
Há movimentos cotidianos que organizam, e há movimentos cotidianos que acumulam tensões silenciosas. Há gestos que restauram o corpo, e há gestos que o desgastam. Há adaptações que ampliam o viver, e há adaptações que apenas sustentam o funcionamento. É nesse ponto que a pergunta que raramente fazemos se torna central: “Para que eu estou me treinando?”; “E quem está organizando esse treinamento em mim?”. Porque o corpo não treina apenas quando faz exercício. Ele treina quando repete, quando responde, quando se adapta, quando suporta. O cotidiano é um campo de treinamento: intenso, contínuo, silencioso.
E é justamente aqui que surgem confusões importantes. A definição biomédica amplamente difundida de atividade física a associa ao gasto calórico acima do metabolismo basal, ou seja, àquilo que mantém o corpo biologicamente vivo. Biologicamente, percebam. Em muitos contextos, isso se traduz na ideia de que só há “atividade física” quando o movimento eleva significativamente esse gasto. Essa redução produz um efeito perverso: reforça a sensação de que movimentos que não cumprem esse critério "não valem", como se toda a vida silenciosa do corpo fosse irrelevante.
Mas há uma quantidade expressiva de pessoas cujo gasto energético é altíssimo — não por práticas saudáveis, mas por atividades contínuas, compulsivas, sem pausa, quase sempre impostas e, em muitos casos, violentas para o corpo. Pessoas com gasto energético elevadíssimo que adoecem por causa disso, e não apesar disso. E esse fenômeno inclui também quem treina, treina, treina demais (aqui no sentido técnico da Educação Física: cumprir sessões intensas, periodizadas, planejadas, mas sem dar ao corpo o tempo necessário para reparar tecidos, metabolizar emoções, reorganizar sistemas, equilibrar ritmos). Adoecem fisicamente e mentalmente, porque o físico e o mental não se separam; são expressões diferentes de um mesmo movimento vital.
Essa desorganização repercute em vários níveis: corporal, emocional, relacional, social. Quando um ritmo interno se impõe aos demais, quando uma camada da vida captura todas as outras, a coerência do conjunto se perde. O corpo, que depende dessa articulação fina entre tempos, intensidades e modos de existir, começa a dar sinais de desgaste. Não se trata de romantizar o sedentarismo nem de demonizar o exercício: trata-se de entender que nem todo movimento é cuidado, e que nem toda prática fisicamente exigente sustenta a vida.
Esse conjunto de questões muda completamente a forma de compreender o que chamamos de “movimento estruturado” no campo da Educação Física. Quando transponho o exemplo anterior (o corpo treinado pelo cotidiano, pelos gestos repetidos e pelas exigências da vida) para o contexto da prática profissional, torna-se evidente que nem todo movimento planejado, periodizado ou executado com rigor técnico cuida do corpo que o realiza.
É perfeitamente possível conduzir uma sessão “correta” segundo os pressupostos biomecânicos e fisiológicos, e ainda assim afastar alguém de si. A técnica pode estar impecável, os parâmetros podem obedecer aos princípios do treinamento, a metodologia pode ser administrada dentro das normas da área e, mesmo assim, o gesto reforçar pressões estéticas, expandir culpas, intensificar comparações, impor metas que não pertencem àquela pessoa. A métrica, por si só, não garante cuidado. A intenção não garante cuidado. A técnica, isoladamente, também não garante.
Não é a complexidade da prática que define se ela cuida ou não, mas a lógica que sustenta o gesto e o modo como ele se inscreve na vida daquela pessoa. O Cuidado em Movimento nasce exatamente dessa distinção: ele se aproxima das práticas corporais tradicionais da Educação Física, mas as repensa. Usa elementos da técnica, mas não se reduz a ela. Dialoga com parâmetros do treinamento, mas questiona o propósito de cada intervenção. Apoia-se em Fisiologia, Biomecânica, Psicologia, Saúde Coletiva, Educação Somática (dentre outros) e reorganiza tudo isso em um campo interdisciplinar que investiga o corpo a partir da pergunta que quase nunca é formulada:
Que tipo de vida estou treinando? E para quê?
Quando essa reorganização começa, quando práticas estruturadas ganham intenção, quando movimentos cotidianos encontram pausa, quando há variação real de ritmos, algo muda qualitativamente. O corpo deixa de operar em fragmentos. Sensações se tornam legíveis. Necessidades ficam mais nítidas. Há espaço para reconhecer limites e escolher o que precisa ser ajustado. Não é revelação metafísica; é um saber que emerge aos poucos, até se tornar evidente: não há como sustentar a vida inteira apenas com um tipo de movimento.
É aí que a metáfora da sinfonia encontra seu lugar não como enfeite, mas como modelo. Uma sinfonia não se sustenta porque um instrumento domina; ela existe porque muitos instrumentos — diferentes entre si — entram, saem, se alternam, compõem juntos. Há pausas, intensidades, camadas, tempos distintos que se articulam para produzir algo que só existe como conjunto. O corpo que encontra coerência funciona assim: não homogêneo, não perfeito, mas capaz de combinar esforços, pausas, estímulos e silêncios sem que uma camada silencie as outras. O cuidado em movimento não promete equilíbrio estático. Promete a possibilidade de composição. Com o que se tem. Com o que se pode. Com o tempo disponível.
Quando essa composição acontece, o corpo volta a ser um lugar habitável. A vida deixa de ser apenas uma sequência de exigências. E o movimento, que sempre esteve lá, encontra, enfim, um sentido.

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